Reflexões de uma entrevista de seleção

Às vezes algumas questões me atravessam tão fortemente que me sinto quase obrigada a pegar meu diário, para quem sabe, tentar rascunhar palavras possíveis que descrevam o que me passa.

Larrosa (2002, p. 21) diz que “a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece”. Concordo com o autor, a experiência não é acúmulo, não se trata do conhecimento adquirido, lido ou observado. A experiência é algo que nos atravessa e, por nos atravessar, torna-nos outro. Nem melhor, nem pior, apenas outro.

A experiência que aqui quero abordar não se prende à experiência filosófica de Larrosa, mas à experiência ou informação, se usarmos os conceitos do autor, para descrever os conhecimentos que vamos adquirindo nos processos formativos do contexto académico.

A ânsia de compor as palavras se agarra ao quotidiano enquanto coordenadora de apoio domiciliário e a forma como o mercado vem se construindo, para a qual componho pequenas composições de letras.

Nessa semana tive o prazer de conhecer uma candidata para uma vaga de auxiliar de geriatria, a qual divulguei numa rede social. Chamamo-la porque no currículo havia o registo de trabalho em dois lares localizados no Porto. É importante realçar que o exercício de escrita a que me proponho não se trata de um julgamento sobre a candidata ou sobre os lares, isso seria um reducionismo da problemática a apenas uma fatia do que compõe a real questão, mas usá-los enquanto pistas para pensar os processos de recrutamento e o modelo de gestão que estamos pacificamente observando.

Voltemos…

Uma rapariga na casa dos vinte anos, muito simpática e de discurso coerente. Demonstrando escuta ativa e aguardando o momento oportuno para intervir na entrevista de forma inteligente. Como grande parte dos imigrantes que chegam a Portugal, a jovem, ainda que pró-ativa não possuía nenhuma experiência com os cuidados aos idosos, com exceção dos churrascos de domingo onde ela reencontrava seus avós e reagia com risos as histórias de esquecimento contadas pelas tias envolvendo os humanos com mais idade e de cabelos de algodão doce.

Para minha surpresa, a inexperiente candidata tinha sido contratada por dois lares como cuidadora e neles prestou os devidos cuidados de higiene e conforto aos que poderiam ser aos nossos pais e avós. Poderíamos dizer que não há segredos em dar um banho a “alguém”, mas referimo-nos a um “alguém” com inúmeras particularidades. A recente cuidadora recebeu algumas dicas e orientações dos colegas enfermeiros e logo foi posta à prova sozinha e por plantões consecutivos para realizar procedimentos de aspiração, algaliação e tantos outros que estarrecida fui ouvindo.

Ora, Bruna, tu começaste a falar da experiência e agora desvirtuas a candidata? Não! De forma alguma podemos descartar as informações que vamos adquirindo com as práticas quotidianas, mas no que diz respeito ao apoio domiciliário, devemos ter a responsabilidade e ética de entregar os cuidados de um idoso a quem, para além da informação, possua formação. Afinal, ninguém pede ao pasteleiro para desenhar a planta de nossa casa, muito menos deixamos que os nossos filhos sejam operados à fimose pela professora de ballet.

Se a ética é o conjunto de valores morais de um grupo ou indivíduo, que tipo de ética estamos a construir?

Poderíamos apontar inúmeros fatores que, possivelmente, desenharam a contratação da aspirante a enfermeira: pouca mão-de-obra disponível, baixos salários, carga horária excessiva, pandemia do coronavírus, imigração descontrolada, oportunismo do mercado… Ainda assim, o que observamos é a precarização dos serviços de cuidados ao grupo mais vulnerável da sociedade, os idosos.

Definitivamente, não podemos permitir que o setor se inunde dessas práticas ou estaremos destinados a sofrer consequências mais devastadoras que a presenciada com a COVID-19.

Bruna Pontes

O livro de uma vida

A Ilustradora e autora de livros infantis Gyo Fujikawa (1908-1998) foi-nos dada a conhecer, nos anos 80, pela editora Verbo.  No livro, com o título, “Um dia em cheio” todas as possibilidades se representam. Da aurora até ao entardecer, bebemos limonadas, brincamos na lama, vestimos a “pele do outro”, podendo ser uma casa, um dinossauro ou um robot, vemos a chuva dentro da casinha com os amigos, fazemos uma longa caminhada, escondemo-nos na floresta, mergulhamos na piscina, acampamos, fazemos um pic-nic, e no final, dizemos boa noite uns aos outros com a certeza de que se quisermos, amanhã, tudo se repetirá.  Obrigada Gyo – este é o livro da nossa vida
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A obscuridade de Alzheimer, a América Latina e duas escritoras inéditas

Uma viagem pela América Latina feita há meio século pela argentina Beatriz Sarlo e o relato da brasileira Heloísa Seixas, sobre a doença de Alzheimer da mãe, são as novidades da Tinta-da-China, que estreia estas duas escritoras em Portugal.

“O Lugar Escuro: Uma História de Senilidade e Loucura”, de Heloísa Seixas, publicado este mês, é um livro de memórias “de uma grande escritora brasileira”, até aqui inédita em Portugal, segunda a editora.

O livro faz o relato da convivência da autora com a doença de Alzheimer da sua mãe, que se instalou num dia exato: “Foi no dia em que minha filha saiu de casa que minha mãe enlouqueceu”, escreve a autora. Esta é a primeira frase do livro.

Era um sábado de manhã e era o dia em que a filha de Heloísa ia sair de casa, e a sua mãe, de 79 anos, que regressara há pouco de uma viagem, arranjou-se a rigor para ir tomar o pequeno-almoço: julgava que ainda estava no hotel.

A partir daqui os sinais foram-se agravando. “Dali em diante cairíamos – minha mãe e todos que estávamos à sua volta – em uma espiral assombrada, feita de vertigem e dor, que giraria cada vez mais rápido, apagando o real”, escreve a autora.

A mesma espiral “marca a intensidade deste relato corajoso e frontal sobre alguém que vai desaparecendo ainda em vida”, descreve a editora.

O escritor brasileiro Ruy Castro, marido de Heloísa Seixas, referiu-se ao livro e a esse período de vida da seguinte forma: “Foi uma trajetória assombrosa, que acompanhei de perto, e que minha mulher, Heloísa, reconstrói nesse livro com uma tremenda força literária e emocional”.

Este livro deixa no ar a pergunta “Para onde vai a identidade de quem amamos quando chega o Alzheimer?” e “resgata da obscuridade um tema tabu”: a doença que tem vindo progressivamente a ensombrar o mundo ocidental, segundo a editora.

“O lugar escuro”, lançado no Brasil em 2007 e adaptado ao teatro em 2013, foi escrito inicialmente como “uma forma de ancorar no papel os fantasmas” que ainda rondavam a autora na época, confessa Heloísa Seixas, para quem este texto era “confessional demais” para ser publicado.

“Porque conviver com a doença de Alzheimer é algo avassalador, e você precisa encontrar um modo de se apaziguar”, acrescenta.

Mas o livro acabou por ser publicado e a autora viu-se de repente no meio de uma “verdadeira tempestade emocional”, com pessoas a interpelarem-na na rua e por telefone para lhe dizerem como o livro as marcara e, sobretudo, para lhe agradecerem ter confessado a sua raiva e não ter feito o papel “de filha boazinha”, conta a escritora na sua página oficial.

Outra novidade da Tinta-da-China para este mês é o mais recente livro da coleção de viagens de Carlos Vaz Marques, “Da Amazónia às Malvinas”, de Beatriz Sarlo, autora argentina até agora inédita em Portugal, que traça uma “grande viagem de juventude” pela América Latina dos anos de 1960 e 70, “pulsando de ímpeto revolucionário”.

“Travessias de barco, caminhadas pelas montanhas e pela selva, o clima e a geografia como protagonistas de aventuras que recriam um continente mítico, ao mesmo tempo que a autora empreende a busca por um ‘santuário latino-americano’”, descreve a editora.

Carlos Vaz Marques admite, no prefácio do livro, que talvez nunca se compreenda a motivação que leva uma rapariga argentina a empreender, enquanto jovem maoista, algumas das “viagens ideológicas” descritas no livro.

“Beatriz Sarlo faz um inteligente e corajoso exercício de autocrítica, reinterpretando vivências”, que a autora descreve como não sendo “simples recordações”, porque lhes pertence “de uma maneira radical”, escreve Carlos Vaz Marques.

“À luz deste outro tempo, é-lhe agora possível constatar que, em viagem como na vida, só encontramos aquilo de que vamos à procura”, acrescenta.

Fonte: SAPO