Massagem ao Senhor Fortuna

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Na verdade não dá para esquecer porque aconteceu. Eu sei que estou aqui e estou a relaxar na massagem e que tenho uma família maravilhosa e olhe que não digo isto da boca pra fora é mesmo o que sinto os meus filhos são maravilhosos e os meus netos meu deus são a luz da minha alma.

Por Susana Cunha

Não imagina o que é acordar e saber que me levanto porque tenho que ir ao meu filho buscar o Rodriguinho para o levar à escola. E o gosto que me dá à quarta-feira ser eu a ir buscar a Marianinha, a minha neta do outro filho que mora aqui no 5.º, e levar a menina à piscina. Olhe eu que achava que não tinha paciência para estar uma hora à espera de qualquer coisa fosse o que fosse, que até na padaria me enervava esperar e dou por mim a conseguir com gosto esperar que a minha menina termine a aula da natação. Olhe que vem do coração. O resto, olhe, ou sou feliz com isto ou então não consigo ser feliz e dou-me à tristeza. Porque o que eu vivi, vivi. Ninguém me tira estas dores. Vivi. E sei que o homem pode virar um monstro assim de repente. Por ganância. Ou se calhar nem é nada por isso. É por medo. Na verdade, o que vivi foi medo. Meu e no coração dos outros. Passei muito tempo a beber por medo de estar sóbrio. Por medo de olhar para dentro de mim e ver no que me tornei. É mais fácil falar dos outros e atirar a culpa para o lombo dos outros que fizeram a guerra. Sabe o que lhe digo minha filha, a guerra não está lá fora, está aqui. E aponta para o coração com a mão trémula das emoções que a conversa lhe estava a despertar. Isto agora não é pobreza. O que lemos e o que vemos na televisão não é pobreza. Pobreza é falta de sobriedade. Por momentos pensei na sobriedade da bebida e no passado do senhor Fortuna da guerra e na presença dela em cada respirar. Por momentos pensei que dizia pobreza é falta de sobriedade de um rumo que nos faz matar e para isso não há justificação nem psiquiatra que nos salve. Matou. Matou em 69, matou depois, matou ontem e o dia antes de ontem. Matou e matou-se a si. O senhor Fortuna olhou para mim com olhos fechados, apertou-me a mão que estava a receber massagem e falou este dizer em silêncio, pobreza é não ter sobriedade para entrar numa palhota e ver uma mulher e duas crianças. Uma mulher e duas crianças serão sempre uma mulher e duas crianças e nunca o inimigo. Creio que respirou profundamente quando quedei a minha mão na sua. Assim. Só assim. E aí falou em palavras muito baixas, tão baixas que só a sua alma ouviu, estou preso porque matei. A liberdade vem devagarinho todos os dias, no sorriso dos meus netos, nos mimos que os meus filhos em dão, na massagem que a menina me dá com tanto amor, no bom dia que recebo todos os dias há mais de quarenta anos da D. Maria. Por falar nisso, pra semana eu dou-lhe a minha vez e faz você massagem à minha mulher está bem, ela está a precisar muito coitadinha. Isto não é pobreza. É sobriedade de amar. É liberdade. Creio que a sua cela está aberta senhor Fortuna, pode sair. Hoje está um dia de sol bonito.

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