Fome

capa FOME

Foram cerca de quinze anos a ouvir sempre a mesma ladainha à mesa – Quem não é para
comer, não é para trabalhar.
O meu pai reformou-se aos trinta e três e passou a coleccionar cristos e outras antiguidades. Eu fui gerado sete anos depois. Sempre o vi a trabalhar, a arrastar móveis
como quem nos diz que mais importante do que uma palavra meiga ou até um toque
silencioso é a força, o movimento que nos levará à boca o alimento. Segundo a minha mãe,
houve um tempo, antes do mundo existir para mim, em que esse escasseou. O meu pai
devia estar certo, sobretudo quando repetia a cantiga – Quem não é para comer…
Hoje, ele não trabalha mais. Reformou-se uma segunda vez porque perdeu o apetite. A
natureza serviu-lhe uma demência que lhe tem vindo a comer as faculdades mentais.
O meu pai nunca vai ler este texto. Ele não sabe que a Flanzine existe. Muitas das vezes não
sabe mesmo quem eu sou. Se ele não tivesse perdido o apetite perguntar-me-ia à bruta: e
isso dá-te de comer?

Por, João Pedro Azul – Flanzine #6 – FOME

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