Massagem ao Senhor Valente

15. Massagem ao Senhor Valente (28.12.2016).jpg

O Natal é bom quando todos estão cá. E chorou. Como uma criança desprotegida. As lágrimas de uma pessoa velha são mais fortes e profundas porque levam a dor de fora para dentro. Se a minha mulher estivesse cá, por estes dias íamos ao Bolhão buscar os frutos secos. Sabe, a nossa padeira sempre diz que morre o corpo e a alma fica na companhia de quem ama enquanto a memória durar. O senhor Valente falava com a voz tão terna e suave.

Por Susana Cunha

Enternecia-me a melodia da sua voz às vezes mais do que o falar das palavras. Sabia-lhe o corpo e pouco da alma. Homem de poucas falas da boca com a família e com os outros e muitas falas do coração escondidas. O coração do senhor Valente hoje está triste. Foi uma vida menina. Trinta e quatro anos com alguém tão especial. A Mimi era especial. Olhe, naquele tempo não havia possibilidade das mulheres estudarem como agora sabe. E a Mimi era tão inteligente. Daria uma enfermeira tão boa. Tinha a sabedoria nos dedos era o que eu lhe dizia. Fez os partos a quase todas as mulheres lá na nossa aldeia. Quando a parteira chegava já a Mimi tinha os bebés cá fora. Foi a madrinha de uns quantos. Ainda hoje me visitam, pelo menos sempre que podem vir ao Porto. O Manel, o António Quim, a Maria, o Zé António. Todos muito bons graças a Deus. Trabalhei muito sabe menina. Esta casa construí com o meu suor. Foi muito duro. Cinco filhos vivos, um morto que já nasceu sem vida que Deus assim o quis. Mas olhe tivemos também uma vida bonita. Agora os filhos criados, os netos e as bisnetinhas pequeninas. Conhece as minhas gémeas conhece. É uma alegria. Ainda a Mimi era viva e fomos os dois com os netinhos pelo Natal ao circo. Foi ali no Coliseu que os meus filhos, mais o meu Artur António e a minha Belinha, não gostam de animais no circo. Sofrem muito os bichinhos coitadinhos. Gostávamos muito de fazer assim surpresas aos meninos. Tenho muitas saudades da minha Mimi. Faz-me falta. Dizem que quando morre primeiro a mulher, vai logo atrás o homem, mas Deus ainda não quis que eu fosse. Fechou os olhos. Escutei-lhe silêncios intranquilos. Demorou tempo a serenar. O tempo que o coração precisou para acolher as memórias da sua companheira. As lágrimas encolheram-se num soluço cego. O Natal é bom quando todos estão cá. Queria ter dito ao senhor Valente que de uma forma ou de outra todos estamos.  Talvez as mãos tivessem falado. Talvez.

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