Amanhã

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Insistem para que abras os olhos
para que vejas o mundo em teu redor
esse mesmo que te abandona
progressivamente
sem grande afectação
ou desassossego
E tu mudo
teimosia consciente da inutilidade
de qualquer palavra
vais-te confundindo com a parede
e a luz que a banha
ausência repetida e fria
como as tuas mãos
Essas mesmas que reforçam a mudez do teu
não querer ver
não importa

é um teatro desocupado

o teu olhar
Da infância
uma praia vazia
não deserta
não
há as sombras de pano
gasto
amarelado
memória rompida
em dias aparentemente
felizes
Gostava que sentisses o m ar
durante esta breve eternidade do agora
não esse que vai e vem em ondas
e que nos molha os pés
mas o ma r que se instala no pensamento

e nos salga a vontade
à chapada
que nem o vento
norte sem nós
sorte sem dentes
postiços
mas não sei por onde andas
nesse teu mover metálico
de elefante abatido
Ainda
queres
ir
para
casa?
sim
vão continuar a dizer-te que essa é a tua casa
que és um tonto
que te trocas todo
que não sabes nada
devias era abrir os olhos
como é que alguém sabe alguma coisa de olhos
fechados
assim vão acabar por se colar
por falta de juízo
desprezas a generosidade de deus
estás à espera de quê
m i l a g r e s
Contenta-te com a sopa que te levam à boca
e não digas que vais daqui
daqui
do fim do mundo
do teu
do nosso
amanhã

 

João Pedro Azul

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